quinta-feira, 17 de maio de 2018


OS GUARDAS DO TAJ


(NÃO SE PODE 
DESAFIAR O PODER.
ou
“MANDA QUEM PODE;
OBEDECE QUEM TEM JUÍZO”.
ou
“OU A GENTE OBEDECE,
OU A GENTE MORRE.” – HUMAYUN)





            Não tendo conseguido assistir, em São Paulo, onde fez grande sucesso, de púbico e de crítica, em longa temporada, após ter estreado em solo português, na linda cidade de Braga, no Theatro Circo, em novembro de 2017, seguindo, depois, para as cidades de Póvoa do Varzim (Cine Teatro Garret), Famalicão (Casa das Artes) e Lisboa (Tivoli de Lisboa), consegui, finalmente, depois de muita espera e ansiedade, ver a peça “OS GUARDAS DO TAJ”, que desembarcou no Rio de Janeiro, no moderno e aconchegante Teatro XP Investimentos, o qual, como já disse, e continuarei a dizer, será, para sempre, para mim, pelo menos, o Teatro do Jockey (VER SERVIÇO.).

            Quando se desenvolve uma grande expectativa com relação a um espetáculo e ela não é totalmente atingida, abre-se espaço para um sentimento de frustração, que pode ocorrer em vários estágios. A peça “OS GUARDAS DO TAJ” não é, exatamente, o que eu esperava ver, mas, no cômputo geral, me agradou e não cheguei a experimentar o desagradável sentimento de desaprovação, ficando, apenas, com o gostinho de “quero mais”. Só não atingiu, totalmente, a minha grande expectativa. A culpa pode ter sido minha, por ter ido com muita sede ao pote.




            A explicação para que eu esteja escrevendo sobre a peça é a de sempre: escrevo somente sobre os espetáculos de que gosto, independentemente do grau: BOM, MUITO BOM, ÓTIMO e OBRA-PRIMA. O espetáculo “OS GUARDAS DO TAJ”, na minha modesta visão, deve ser classificado como BOM, que merece ser visto e que tinha tudo para ser melhor, se o texto colaborasse para isso. É nele que enxergo o que não me permite escrever com mais entusiasmo sobre esta montagem, muito embora reconheça que estou indo de encontro à opinião de muitos, da maioria, a qual o considera excelente. Divergências de opiniões, algo muito saudável, por sinal.

Lendo o que descreve a sinopse da peça, abaixo transcrita, enviada por BETH GALLO, da MORENTE FORTE COMUNICAÇÕES, tem-se a ideia de se tratar de um excelente texto, em função dos temas que ele aborda, universais e atemporais, voltados para a existência humana. O que penso sobre ele, porém, é o mesmo que diria a respeito de outra peça do mesmo dramaturgo, “Playground”, à qual assisti, muito recentemente, cuja sinopse também me despertou grande interesse em conferir o espetáculo, e que, da mesma forma, não correspondeu à minha expectativa. Embora seja considerado um bom dramaturgo, percebo, com humildade, algumas falhas na carpintaria dos dois textos.






Como esta crítica está voltada para “OS GUARDAS DO TAJ”, vou esquecer a outra peça e me deter neste texto, que, a meu juízo, deveria ser mais enxuto, evitando-se repetições, as quais, longe de agradar, entediam um pouco o espectador. Comigo, pelo menos, ocorreu isso. Essa é, porém, a única falha que observei na montagem, que eu recomendo, apresentando, para isso, vários motivos, os quais citarei mais adiante.

Eis a sinopse, não escrita por mim, mas fornecida pela assessoria de imprensa, com pequenos acréscimos meus:







SINOPSE:

À primeira luz da manhã, um novo edifício, representando o poder crescente do império, será revelado: o glorioso TAJ MAHAL, mandado construir pelo poderoso imperador Shah Jahan, em homenagem póstuma à sua segunda esposa, e favorita, Mumtaz Mahal (“a joia do palácio”), que lhe dera 14 filhos, tendo morrido durante o último parto.

Mas, para dois guardas imperiais, de baixa patente, BABUR (RICARDO TOZZI) e HUMAYUN (REYNALDO GIANECCHINI), amigos de longa data e designados a proteger o palácio, a manhã vem trazer uma crise existencial, que abalará sua fé no Império e nos outros humanos. Eles fazem a vigilância noturna, na véspera da “inauguração” do TAJ, e nem a eles é permitido olhar para trás, para matar a curiosidade sobre a obra, sob pena de severo castigo, uma vez que poderiam estar sendo observados por outrem.

Durante o trabalho, quando nem deveriam conversar, por insistência de BABUR, os dois trocam ideias sobre estranhas invenções, fruto da imaginação fértil deste.

“OS GUARDAS DO TAJ” retrata dois homens comuns, que se deparam com a beleza imensurável do TAJ e, ao mesmo tempo, são varridos pela carnificina e pela injustiça que cerca uma das maravilhas mais famosas do mundo.

O ano é de 1648 e os dois estão em pé e de costas para o, ainda não revelado, TAJ MAHAL. BABUR está cheio de curiosidade inextinguível; HUMAYUN é pura ortodoxia obediente. Amigos, desde a infância, acabam se confrontando, diante das regras estabelecidas e da maneira como cada um deles vê a sociedade e suas vidas.

Além de estarem proibidos de olhar para o edifício, os dois amigos também acabam sendo escalados para participarem de uma famosa história arbitrária, que o imperador ordenou que executassem.

O texto levanta questões potentes sobre o humano, o preço pago ao longo da história, para realizar os caprichos dos poderosos, mesmo quando resultam em maravilhas arquitetônicas, que, em última análise, serviriam para dar prazer às massas.

A decepação de 40.000 mãos é uma das muitas lendas que cercam o TAJ, mas que o autor usa, de maneira brilhante, para explorar, de forma inteligente e sem ser esmagadoramente dramática, uma série de ideias filosóficas. Uma delas é se há limites na busca humana pelo conhecimento, o que rege as relações de amizade e as proibições absurdas que, muitas vezes, nos são impostas.











         Ao mesmo tempo que representa a força do poder, o TAJ MAHAL, um monumento/mausoléu, todo construído em mármore branco, é considerado, também, como uma das maiores provas de amor de um homem por uma mulher, mesmo ela já estando morta. É um Patrimônio da Humanidade, determinação da UNESCO, e, a partir de 2007, passou a ser considerado como uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo. Fica situado em Agra, na Índia, e, sobre sua construção, existem muitas histórias, a maioria delas considerada lendas. A mais conhecida e horripilante de todas, amplamente explorada na peça, é a de que o imperador, depois de apresentado, aos súditos, sua grandiosa obra, ordenou que fossem cortadas as duas mãos dos 20.000 homens que trabalharam na sua construção, além de mil elefantes. Nem o arquiteto, que projetou e comandou a construção, Ustad Isa, considerado “o mais inteligente homem de toda a Índia”, foi poupado.  O motivo não poderia ser mais torpe: para que não fosse construída nenhuma outra obra arquitetônica de beleza igual ou superior à do TAJ. Ao todo, 40.000 mãos teriam sido decepadas.

            Embora, salvo engano, na peça, tenha sido dito que sua construção tenha demorado 16 anos (Será que ouvi mal?), consta que foram consumidos quase 22, para a sua construção, de 1632 a 1653. Seu batismo teve origem no nome da segunda, e favorita, esposa do imperador, como já foi dito, na sinopse, Muntaz Mahal (apelido dado pelo marido, significando “a primeira dama do palácio”), embora seu verdadeiro nome fosse Aryumand Banu Began. A designação TAJ MAHAL deriva do nome dela, sendo "TAJ" uma palavra persa, que significa "coroa". TAJ MAHAL seria, portanto, "A coroa de Mahal".




Além do mármore branco, que sustenta a edificação, nela estão incrustados 28 diferentes tipos de pedras semipreciosas. Suas quatro faces são absolutamente idênticas, todas com um arco central de 33 metros de altura. Os muros do mausoléu são cobertos por inscrições tiradas do Alcorão, livro sagrado muçulmano. Para os islâmicos, o jardim da construção simboliza o paraíso, com flores, fontes e ciprestes. É um dos monumentos mais visitados no mundo, por turistas de todas as partes da Terra. Apurei que, só em 2003, mais de 3 milhões de pessoas visitaram o TAJ.

Apesar de eu não ter encontrado, ainda, um texto de RAJIV JOSEPH, autor norte-americano, com ascendência indiana, por parte de pai, pelo qual eu me encantasse (mas não vou desistir), o dramaturgo é bastante festejado, em seu país, e chegou a ser finalista do Prêmio Pulitzer de 2010.

“OS GUARDAS DO TAJ” estreou “Off-Broadway”, em julho de 2015, tendo recebido indicações a prêmios, naquele ano e em 2016 e 2017.

Para a montagem brasileira, o texto foi traduzido e adaptado por RAFAEL PRIMOT, que também estreia, como diretor, dividindo a tarefa com o tarimbado JOÃO FONSECA, no que pode ser considerado um bom trabalho de direção. Esse, aliás, é um dos motivos que me fazem recomendar a peça.






Outros ainda virão, como, por exemplo, as duas belíssimas interpretações de GIANECCHINI, em seu melhor trabalho como ator, e TOZZI, um gigante em cena, com um leve destaque para o trabalho deste, talvez em função da estrutura do personagem, que oferece, ao ótimo ator, mais possibilidades de empatia com o público. Isso se explica, quiçá, pelo fato de BABUR ser mais espontâneo, em seus pensamentos e ações, mais sonhador, não temendo o perigo, ouvindo mais o coração e agindo com emoção, o que o faz mais sofredor que o amigo. Guardadas algumas proporções, ante a tirania do imperador, demonstra uma certa coragem e, dele, pode-se, sempre, esperar algum desafio, em oposição a HUMAYUN, que encarna a submissão total, o pragmatismo, o medo e o temor à sanha do imperador, criado que foi por um pai que lhe ensinou que ordens existem para serem cumpridas e nunca questionadas, o que o faz agir sempre seguindo a razão, voltado para o cumprimento cego das ordens, jamais pensando se estará agindo com ética, sem medir as conseqüências de seus atos. Antes de temer o chefe supremo, o imperador, HUMAYUN teme a fúria do pai, um dos mais graduados guardas imperiais, com quem mantinha uma difícil relação. Este, que seria capaz, até mesmo, de denunciar o filho, por alguma falta cometida, lhe cobra uma fidelidade cega a Shah Jahan e o cria como um mero fantoche, um robô, que apenas aprendeu a mexer a cabeça em movimentos verticais, sempre dizendo “sim”.

Num ponto, os dois concordavam: ainda que pudessem achar arbitrárias e cruéis algumas ordens vindas do Império, ambos pensavam que o fato de as cumprir seria um passaporte para alcançar melhores postos na Guarda Imperial, inclusive trabalhar no harém do imperador, o que provocava grande euforia em BABUR, sonhando em circular entre mulheres nuas e, quem sabe, disponíveis.




Diz o “release” que “os temas centrais do espetáculo sobre dois guardas imperiais, proibidos de olhar para o esplendor do TAJ MAHAL, em sua inauguração, são a curiosidade humana, o capricho dos poderosos e a amizade entre dois homens. Além disso, quando os guardas são ordenados a realizar uma tarefa impensável, as consequências os obrigam a questionar os conceitos como amizade, beleza e dever, e os muda para sempre de maneira única e poética”. Isso, dito assim, é, sem dúvida, um grande atrativo, para que se assista à peça, faltando, porém, que isso fosse mais bem explorado no texto, ou o fosse de outra forma, sei lá.

Os outros motivos que me levam a recomendar “OS GUARDAS DO TAJ” são o conjunto plástico, a plasticidade do espetáculo, representada pelo simples e marcante cenário, de MARCO LIMA, despojado de excentricidades, limitado a três paredes de pedra e alguns objetos, para a cena da carnificina, num palco cinza; os belíssimos figurinos (falo dos uniformes dos guardas), de rara beleza e acabamento, belo trabalho de FÁBIO NAMATAME; da correta e envolvente iluminação, de DANI SANCHEZ; e das vídeo projeções, por conta do Estúdio Bijari. Sobra espaço, também, para um elogio à boa qualidade da música original, totalmente em consonância com o espetáculo, cujo responsável é MARCELO PELLEGRINI.

E, por falar em música, não posso deixar de mencionar um lindo mantra, que HUMAYUN canta, em baixinho, para BABUR, numa das mais belas cenas da peça, e que GIANECCHINI, ao final do espetáculo, durante os agradecimentos, após a ovação da plateia, explica, ao público, se chamar “Prabhu Aap Jago”, cujo teor pode ser traduzido por “Deus, desperte! Deus desperte em mim! Desperte em todos os lugares! Acabe com o jogo do sofrimento! Ilumine o jogo da alegria!”. Também é aceitável (Encontrei, numa pesquisa) outra tradução: Desperte-se e vá em direção a Deus, além da escuridão da ignorância e da ilusão! Vá além de todas as coisas aparentes e se estabeleça em todos os lugares!”.






Certamente, o ponto nevrálgico da peça é nos levar a uma reflexão acerca de valer a pena, ou não, deixar que uma amizade possa ser ameaçada por interferência de um poder cego, intransigente e cruel. Até que ponto deve ficar em segundo plano o real sentido da vida e das relações. A jornada desses dois amigos nos questiona se vale a pena pagar um preço tão alto, para manter a ordem estabelecida” (extraído do “release”.).

A carnificina, totalmente impossível de ser realizada por apenas dois homens, em tão escasso tempo, soa como uma metáfora de tantas barbáries que, infelizmente, até nossos dias, testemunhamos.

É comovente a atitude de BABUR, ao perceber que contribuiu para “matar a beleza do mundo”, por meio de sua obra de decepador de mãos de artistas, o que privaria a humanidade de conhecer outras obras de arte tão lindas quanto o TAJ. Também nos comove a sua intenção de diminuir a culpa do amigo, ao assumir ser ele o pior dos dois, uma vez que lhe coubera o ato de cortar as mãos daqueles infelizes, enquanto, a HUMAYUN restava, “apenas”, a complementação da barbárie, já que este cauterizava os ferimentos.







FICHA TÉCNICA:

Texto: Rajiv Joseph
Tradução e Adaptação: Rafael Primot
Direção: Rafael Primot e João Fonseca

Elenco Reynaldo Gianecchini (Humayun) e Ricardo Tozzi (Babur)

Música Original: Marcelo Pellegrini
Figurino: Fábio Namatame
Cenografia: Marco Lima
Vídeo Projeção: Estúdio Bijari
Iluminação: Dani Sanchez
Cenotécnico: Fernando Brettas (Ono-Zone Estúdio)
Cenógrafo Assistente: César Bento
Produção Musical: Surdina
Preparador Corporal (Método Suzuki): Fabiano Lodi
Visagismo: Guilherme Camilo
Assistente de Produção (Ensaios): Bruno Fagotti
Assessoria de Imprensa: SP: Daniela Bustos, Beth Gallo e Thaís Peres – Morente Forte Comunicações
Assessoria de Imprensa RJ: Barata Comunicação
Programação Visual: Vicka Suarez
Adaptação Projeto Gráfico: Erik Almeida
Fotos Programação Visual: Fernando Torquatto
Fotos de Cena (Portugal): Rogério Martins
Fotos de Cena (Brasil): João Caldas Fº
Assistente de Fotografia: Andréia Machado
Mídias Sociais: Dani Angelotti e Luciano Angelotti (Cuboweb)
Filmagens e Edições para Web: Jady Forte –(Desteatrando)
Coordenação de Produção: Egberto Simões
Produção Executiva: Martha Lozano
Assistente de Produção: Bárbara Santos
Assistente Administrativa: Alcení Braz
Administração: Danilo Bustos
Idealização: Rafael Primot e Enkapothado Artes
Produtoras: Selma Morente e Célia Forte
Realização: Morente Forte Produções Teatrais



















SERVIÇO:

Temporada: De 04 de maio até 03 de junho de 2018.
Local: Teatro XP Investimentos (antigo Teatro do Jockey).
Endereço: Av. Bartolomeu Mitre, 1314 – Leblon – Rio de Janeiro
Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 21h30min; domingo, às 18h.
Horário de Funcionamento da Bilheteria: 3ª feira, das 13h às 17h; de 4ª a 6ª feira, das 17h às 21h; sábado, das 13h às 21h; e domingo, das 13h às 18h. Estacionamento no local.
Vendas: telefone (21) 4003-6860 e http://www.eventim.com.br
Valor do Ingresso: R$90,00 (inteira) e R$45,00 (meia entrada).
Lotação: 331 lugares.
Duração: 75 minutos.
Gênero: Drama.
Indicação Etária: 12 anos.

OBSERVAÇÃO: Todas as apresentações terão descritivo em braille e intérprete de libras.







            Não se pode negar que o espetáculo também nos fornece elementos para uma comparação com o que estamos vendo, em termos de política, no mundo contemporâneo, sem deixar de fora o próprio Brasil. No nosso caso, podemos dizer que já está na hora de deixarmos de ser HUMAYUN e passarmos a assumir uma posição mais de BABUR; deixarmos a acomodação e a atitude de carneirinhos ou de vaquinhas de presépio, para assumirmos um protagonismo de uma fera ferida, em defesa de nossos direitos.

            Por fim, quero render uma homenagem a SELMA MORENTE e CÉLIA FORTE, pelo brilhantismo desta produção.

            Recomendo “OS GUARDAS DO TAJ”!!!

            E VAMOS AO TEATRO!!!

            OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

       COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA A DIVULGAÇÃO DO BOM TEATRO BRASILEIRO!!!






 



(FOTOS: JOÃO CALDAS Fº.)

















































segunda-feira, 14 de maio de 2018


CAFONA SIM,
E DAÍ?
– UMA HOMENAGEM


(UMA MERECIDA HOMENAGEM 
A UM HOMEM
QUE RESPIRAVA TEATRO:
 SERGIO BRITTO.
ou
SOMOS TODOS CAFONAS,
E DAÍ?)





            Em 1997, 21 anos atrás, quando administrava o extinto Teatro Delfim, o grande ator e diretor, SERGIO BRITTO, saudoso e inesquecível, teve a brilhante ideia de montar um espetáculo, um misto de TEATRO e “show”, mais isto do que aquilo, chamado “CAFONA SIM, E DAÍ?”, que contava com uma ficha técnica de altíssimo nível, da qual faziam parte, dentre outros, o próprio SERGIO, na direção, que dividia com Marco Santos, além de serem os dois autores do texto, nomes de reconhecido talento, no TEATRO, como Claudio Botelho, na direção musical, arranjos musicais e vocais; Marcelo Marques, na cenografia e nos figurinos; Rogério Wiltgen, na iluminação; e Cláudia Ribeiro, na coreografia. O elenco era formado por Suely Franco, Nedira Campos, Beth Lamas, Rogério Freitas, Antônio Carlos Feio e Eli Mendes.

            Dos números do “show”, dois eram os mais aplaudidos: um deles, quando Rogério cantava o clássico brega “Coração Materno”, de Vicente Celestino, segurando o coração da mãe, por ele extirpado, a pedido de sua amada, como prova de amor, e que caía no chão, depois de o filho ter tropeçado, durante uma corrida, e o ator, como um ventríloquo, falava pela mãe, ou melhor, pelo coração da mãe: “Magoou-se, pobre filho meu? / Vem buscar-me, filho, aqui estou, / Vem buscar-me, que ainda sou teu”; o outro era quando Suely descia à plateia, cantando “Vingança”, de Lupiscínio Rodrigues, fingindo brigar com um espectador: “Eu gostei tanto, tanto, / Quando me contaram / Que te encontraram, / Chorando e bebendo, / Na mesa de um bar.”.




            Vem, agora, um jovem, porém já consagrado dramaturgo, DANIEL PORTO (É só se lembrar de sucessos como “O Pastor”, “Volúpia da Cegueira”, “Acabou o Pó” e Lady Christiny”, além de dois ou três espetáculos infantojuvenis.), com uma proposta de prestar uma homenagem a SERGIO BRITTO, abrindo as comemorações pelos seus 95 anos, se vivo estivesse (Não digo “entre nós”, porque isso ele sempre estará.), com um espetáculo que não é um “remake” daquele outro, mais algo feito nos moldes, precedido por uma boa dramaturgia, dividido em dois atos.

            Não só é justa como bem feita a homenagem a SERGIO BRITTO, um homem que dedicou 70 anos de sua vida ao TEATRO, um ser que respirava TEATRO, jogando bem em várias posições, como ator, diretor, professor, escritor, apresentador, produtor e grande incentivador dos jovens, sem, jamais, deixar de estar ao lado de alguns dos maiores nomes, verdadeiros ícones, como ele, do TEATRO BRASILEIRO, como Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, e Tônia Carrero, apenas para citar alguns. SERGIO era um homem de uma cultura ímpar, dono de um grande acervo de obras de artes, agora, generosamente, disponibilizadas, para pesquisas, graças à sua sobrinha Marília Britto.

            Com ótima direção de ALEXANDRE LINO, parceiro de DANIEL em todas as montagens citadas acima, o espetáculo é dividido em dois atos, a saber: no primeiro, discute-se o “show” que uma companhia deseja montar para homenagear BRITTO. No segundo, acontece, literalmente, o tal “show”.

            Esta análise obedecerá à divisão da peça, em duas partes.









SINOPSE:

Um grupo de atores se prepara para estrear “CAFONA SIM, E DAÍ”.

No primeiro ato, o público acompanha toda a preparação desta montagem - as relações, crises e alegrias vividas nos bastidores.

O segundo ato é um metateatro, quando o público assiste ao espetáculo dentro do espetáculo.
  




 



            No primeiro ato, seis atores/cantores, em trajes de trabalho, usando roupas do dia a dia, de ensaio (moletons, bermudas e camisetas), em cena, tendo como cenário, apenas, instrumentos musicais (teclado, violão, guitarra, carrom e percussão), acompanhados de seus respectivos executores, além de mochilas e garrafas de águas, espalhadas pelo chão, relembram a montagem de 1997 e discutem o repertório, atualizando-o, sempre preocupados com a possibilidade de agradar a SERGIO (O que o SERGIO diria?), sempre se questionando se ele aprovaria isto ou aquilo.

            É véspera da estreia do “show” e uma mistura de insegurança e nervosismo, como de hábito, toma conta dos atores, cujo elenco é formado por ANTÔNIO CARLOS FEIO, o único a ter feito parte, atuando, da montagem originalLUCIANA VICTOR, que, em 1997, trabalhou como produtora; CLÁUDIA RIBEIRO, coreógrafa da montagem original; NÍVIA TERRA, MARCELO CAPOBIANGO, ator que, regularmente, trabalhava com BRITTO; e FRANCISCO SALGADO. Eles se aquecem, física e vocalmente, à medida que o público vai entrando na Arena e se acomodando, enquanto se dá aquele ritual de ensaio, de preparação para um espetáculo. Ambiente de expectativa.

            Basicamente, a parte teatral se concentra neste primeiro ato, que conta com um excelente texto, no qual o dramaturgo explora vários assuntos ligados ao universo dos palcos, como, por exemplo, falar das dificuldades para se montar uma peça; da insensibilidade de determinados críticos de TEATRO, que, simplesmente “detonam” um espetáculo, sem considerar o sacrifício por que passam os envolvidos no projeto; do pouco caso das “autoridades governamentais”, para com as artes, em geral, e, principalmente, o TEATRO; do deslumbramento de uma iniciante, aluna de TEATRO, orgulhosa de apresentar seu primeiro trabalho profissional aos colegas de curso; elogiam atuações de artistas, como a da grande Suely Franco, principalmente sobre sua atuação na montagem original da peça; explora o problema de uma atriz, mãe, que se divide, preocupada em ensaiar bem e em atender aos chamados telefônicos de sua mãe, dando notícias do estado de saúde de seu filho, doentinho; discutem a fuga do público dos teatros, não pelos ditos altos preços, mostrando que um ingresso para o SESC Copacabana equivale ao de um cinema, ou menos; criticam a política de “formação de plateia”, que não forma coisa nenhuma e leva aos teatros, gratuitamente, dezenas de pessoas que têm condições de pagar por suas entradas; e por aí vai...










            Em determinado momento, abre-se um espaço para uma discussão sobre o que é ser “brega” ou “cafona” e cantam algumas canções do gênero, para decidirem se serão, ou não, incorporadas ao “set list”, deixando bem claro que não se trata de um musical, mas de um “show” com músicas bregas.

            Excelente ideia da direção é fazer o elenco sair, por duas vezes, para um rápido lanchinho, deixando a Arena vazia, porém não parando de contracenar, fora do espaço cênico.

            Todo o primeiro ato, de forma inteligente e óbvia, recebe, como iluminação, do grande profissional, que é RENATO MACHADO, uma luz, por assim dizer, de serviço, diferente do segundo.




            Durante o ensaio, acontecem providenciais e propositais desacertos, como problemas de som e até um refletor, que despenca e se espatifa no chão.

            O único pequeno senão que aponto, nesta encenação de um ensaio, mas que não tem um peso significativo, são as piadas, que considero de mau gosto (não estou falando do famigerado “politicamente correto”, que eu abomino) sobre uma antiga cantora, Kátia, deficiente visual, que serve de chacota, a Kátia Cega, como a denominam. Incomodou-me um pouco, mas é como se sua deficiência se tornasse um “sobrenome” para a cantora e compositora, e o público, na sua quase totalidade, aprovou e deu muitas gargalhadas. Não estou julgando; apenas exponho o meu pensamento e respeito o dos outros.   

            Para finalizar o ato, após a segunda saída dos atores, entra uma gravação com um depoimento de SÉRGIO BRITTO, um lindo texto, de emocionar e provocar lágrimas.

            Após um breve intervalo, inicia-se o “show”, em sua estreia, nada mais que uma sucessão de canções bastante bregas, porém de agrado do público e de grande apelo popular, algumas com letras hilárias, cuja relação aqui está:


 






AS CANÇÕES DA PEÇA E SEUS RESPECTIVOS INTÉRPRETES:

PRIMEIRO ATO (ENSAIO):                                                 

Cafona Sim, E Daí? – Claudio Botelho (compositor) 
Freak Le Boom Boom – Gretchen 
Conga Conga Conga – Gretchen 
Meu Sangue Ferve Por Você – Sidney Magal 
Primeiro Encontro – Banda Uó 
Brigou Comigo – Banda Calypso  
Tchau Para Você – Banda Calypso 
Holiday Foi Muito – Falcão 
Se Te Agarro Com Outro Te Mato – Sidney Magal
Roda – Sara Jane 
Pertinho De Você – Elizângela 
Doida, Desalmada E Atrevida – Ronaldo Adriano 
Ex-My Love – Gaby Amarantos 
Lembranças – Kátia 
Quatro Semanas de Amor – Luan e Vanessa 

SEGUNDO  ATO (“SHOW”):

(HOMENAGEM AO PRIMEIRO SHOW - REPRISE): 

O Amor E O Poder (Como Uma Deusa) – Rosana
Quem É? – Sivinho
Não Se Vá! – Jane e Herondy 
Eu Queria Dizer Que Te Amo Numa Canção – Fernando Mendes 
Fogo E Paixão – Wando  

(DESEJOS):
Raposa E As Uvas – Reginaldo Rossi 
Regime Fechado – Simone e Simaria 
Eu Sei De Cor – Marília Mendonça  

(BRIGAS):
Você Não Vale Nada, Mas Eu Gosto De Você – Calcinha Preta 
Te Amo De Verdade – Bonde do Brasil
Vou Rifar Meu Coração – Lindomar Castilho 
Desapareça – Rodrigo José
Nem Um Toque – Rosana
Foi Assim - Wanderléa  
Loucura – Cauby Peixoto
Porque Brigamos – Diana 


(DOR DE COTOVELO):
Filme Triste – Trio Esperança  
Vidro Fumê – Bruno e Marroni  
Sonhos – Peninha  
O Grande Amor Da Minha Vida – Gian e Giovani    
Negue – Maria Bethânia  

(AMOR):
É O Amor – Zezé de Camargo e Luciano 
Evidências – José Augusto e Xitãozinho e Xororó
Meu Coração É Brega – Veloso Dias








Durante o segundo ato, o “show”, propriamente dito, a plateia não consegue parar de gargalhar, e cantar, por conta do insólito contido nas letras das canções, muito bem interpretadas pelos atores/cantores, que dão ênfase a elas, teatralizando, propositalmente, da forma mais cafona e canastrona possível, cada um dos “hits” do universo brega. Para isso, fazem uso de caras e bocas, de um interessante trabalho de expressão corporal, a cargo de RODRIGO SALVADORETTI, também assistente de direção, sem falar nas coreografias ridículas (de propósito), criadas por CLÁUDIA RIBEIRO, todos trajando figurinos de gosto duvidoso, para usar um eufemismo para “ridículos”, com muitos brilhos (tudo intencionalmente, como não poderia deixar de ser), obra irretocável de KARLA DE LUCCA, a qual também assina a cenografia, que, aqui, conta com um outro elemento do universo brega: vários globos de espelho, de tamanhos diversos, para os “efeitos especiais”.

Se, no primeiro ato, RENATO MACHADO conteve-se, com a luz quase de serviço, neste, ele esbanja cores e intensidades de luz, acompanhando o clima de cada canção, o que alegra, em muito, o ambiente e põe em evidência detalhes das letras e dos figurinos. Excelente trabalho de RENATO, mais um para o seu vasto e premiadíssimo currículo.

Foi muito bem executada a pesquisa musical, por LUCIANA VICTOR. Nada melhor, para iniciar o “show” do que “O Amor E O Poder”, mais conhecida por “Como Uma Deusa”, marca da quase meteórica carreira da cantora Rosana. O público acompanha, fazendo coreografias com as mãos para cima. O mesmo acontece com “Fogo e Paixão”, sucesso absoluto de Wando. Destaques, também, marcantes, para o clássico “É O Amor”, de Zezé de Camargo e Luciano, e, acima de todas, para “Evidências”, que leva a plateia à loucura, num frenesi incontido. E, aqui, eu me incluo.

Não posso deixar de fazer o registro de uma belíssima interpretação, muito merecidamente aplaudida, de “Nem Um Toque”, outro sucesso de Rosana, na voz da tecladista ANANDA TORRES. E, já que falei nela, aproveito para citar os trabalhos dos outros músicos da pequena, porém eficiente, banda: JORGE LIMA (violão e direção musical) e RODRIGO SALVADORETTI (guitarra e percussão).



 






FICHA TÉCNICA:

Texto: Daniel Porto
Direção: Alexandre Lino
Assistente de Direção e Preparação Corporal: Rodrigo Salvadoretti

Elenco: Antônio Carlos Feio, Luciana Victor, Cláudia Ribeiro, Nívia Terra, Marcelo Capobiango e Francisco Salgado

Diretor Musical: Jorge Lima
Músicos: Ananda Torres, Jorge Lima e Rodrigo Salvadoretti
Pesquisa Musical: Luciana Victor
Preparação Vocal: Ananda Torres
Coreografia: Cláudia Ribeiro
Cenografia e Figurino: Karla de Lucca 
Iluminação: Renato Machado
Técnico de Luz e Som: Kelson dos Santos Alvarenga
Fotografia: Janderson Pires
Programação Visual: Guilherme Lopes Moura
Produção Temporada RJ: Daniel Porto
Produtora: SBritto Assessoria Produções e Serviços Artísticos e LUZES DA RIBALTA Produção Artística
Direção de Produção: Alexandre Lino
Idealização e Produção: Antônio Carlos Feio e Luciana Victor
Realização: SESC Rio
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany





 


 




SERVIÇO:

Temporada: De 10 de maio a 3 de junho.
Local: SESC Copacabana (Arena).
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana – Rio de Janeiro.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h30min; domingo, às 19h.
Valor do Ingressos: R$30,00 (inteira), R$15,00 (meia entrada) e R$7,50 (associados SESC).
Horário de Funcionamento da Bilheteria: De  3ª feira a domingo, das 15h às 19h. Capacidade: 240 lugares.
Duração: 80 minutos.
Gênero: Comédia Musical.
Classificação Etária: 12 anos.


          





Segundo o “release”, enviado por STELLA STEPHANY (JSPONTES COMUNICAÇÃO), “O acervo SERGIO BRITTO, composto por milhares de fotos, matérias de jornais, programas e textos de espetáculos, foi disponibilizado através do Portal Sergio Britto Memórias (www.sergiobritto.com). Pesquisas, nesse acervo digital, podem ser realizadas no portal da Funarte: http://www.funarte.gov.br/sobre-o-acervo-sergio-britto-digital/. O acervo físico encontra-se na Biblioteca do Instituto CAL de Arte e Cultura, e contempla, entre outros, as coleções de vídeos, DVDs e livros do artista”.

“CAFONA SIM E DAÍ? UMA HOMENAGEM”, espetáculo idealizado por ANTÔNIO CARLOS FEIO e LUCIANA VICTOR, os quais, “através de SERGIO BRITTO, se conheceram e se casaram nos anos 1990, quando trabalhavam na ocupação do Teatro Delfim”, nasceu “da vontade de resgatar a ideia que motivou um dos espetáculos de maior sucesso - tanto de público quanto de crítica - de SERGIO BRITTO, quando esteve à frente da ocupação do, hoje extinto, Teatro Delfin, durante a década de 1990” e contou com “o apoio e acompanhamento de Marília Brito, sobrinha de SERGIO e responsável pelo seu legado, a qual vem tocando uma série de projetos de preservação de sua memória – documentário, portal, exposições, livros, através da empresa SBRITTO, criada ainda junto com o SERGIO, e detentora dos direitos do artista”.

            Quem disser que não tem uma pontinha de breguice, de cafonice mente ou não é brasileiro. “A música brega é apenas um dos expoentes de um processo comportamental, que estabelece tendências e dita consumo. Temos todo um mercado que se movimenta de maneira constante e fiel. A música, pode-se dizer, é sua maior estrela, trazendo visibilidade e democratização. Todo brasileiro, independentemente de classe, formação, partido ou credo, em algum momento, já se identificou com os sentimentos exacerbados  de uma canção chamada brega”.

Somos todos bregas. “CAFONA SIM, E DAÍ?”. E o espetáculo não poderia deixar de ser finalizado pela canção “Meu Coração É Brega” (Veloso Dias), porque é mesmo.



“SOU UM HOMEM COM CERTA INTELIGÊNCIA, ALGUM TALENTO, MAS COM UMA VOCAÇÃO ENORME PARA O TEATRO.” (SERGIO BRITTO).




 
Sergio Britto.


            RECOMENDO, COM O MAIOR EMPENHO, O ESPETÁCULO!!!

            E VAMOS AO TEATRO!!!

            OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

            COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA A DIVULGAÇÃO DO BOM TEATRO BRASILEIRO!!!





FOTOS: JANDERSON PIRES.


GALERIA PARTICULAR.
(FOTOS: GILBERTO BARTHOLO.)















Com Alexandre Lino (diretor) e Daniel Porto (autor).