quarta-feira, 24 de dezembro de 2014


CAROS OUVINTES

 

(UMA VERDADEIRA, E AGRADÁVEL, AULA DE HISTÓRIA DO BRASIL, ATRAVÉS DAS ONDAS DO RÁDIO.)

 

 


 

            Sexta-feira, 5 de dezembro de 2014, dia de conferir o tão elogiado espetáculo CAROS OUVINTES, em cartaz, naquele dia, na Grande Sala do MASP.  Assisti à peça e adorei o que vi.  Embora já tenha terminado sua trajetória, após uma longa temporada, de sucesso de público e de crítica, vale a pena o registro.  Espero que venha para o Rio de Janeiro.

 

 

 

 
SINOPSE:
 
CAROS OUVINTES é uma comédia sobre o começo das telenovelas, visto sob o olhar dos atores que faziam sucesso nas radionovelas.
 
Na década de 60, sob o peso da ditadura militar, quando os aparelhos de televisão começaram, aos poucos, a fazer parte das casas brasileiras, o público passou a prestar atenção não somente na voz dos personagens, mas também em sua imagem.  Assim, muitos atores, que faziam sucesso no rádio, começaram a temer a TV: galãs, cujos visuais, até então, não eram conhecidas do grande público, na verdade, eram gordinhos e carecas; muitas mocinhas, de voz doce e suave, tão cobiçadas pelo universo masculino, ao vivo e, ainda, não em cores, já eram senhoras.
 
Em CAROS OUVINTES, a ação se passa numa das últimas emissoras a produzir e transmitir radionovelas.  O elenco prepara uma grande apresentação ao vivo, no último capítulo, para, depois, se despedir do público, em um palco armado do lado de fora da estação de rádio.
 
VICENTE MARTINHO (PETRÔNIO GONTIJO), o produtor da radionovela, mantém, com a atriz CONCEIÇÃO NEVES (NATÁLLIA RODRIGUES), um caso amoroso, que entra em colapso, quando ela é chamada para estrelar uma telenovela.  Empenhado em que o último capítulo da radionovela seja impecável, VICENTE conta com a absoluta lealdade e profissionalismo do sonoplasta EURICO BOAVISTA (ALEX GRULI) e do locutor WILSON NÉLSON (RODRIGO LOPEZ).
 
VESPÚCIO NETO (ALEXANDRE SLAVIERO), um publicitário, quer que o casal romântico da rádio repita a dose na telenovela, que seu cliente irá patrocinar, despertando ódio em PÉRICLES GONÇALVES (EDUARDO SEMERJIAN), um ex-galã anacr, ERMELINDA PENTEADO (AGNES ZULIANI) e a cantora decadente LEONOR PRAXEDES (AMANDA ACOSTA).
 
A série de atritos é desencadeada quando o anúncio de que o patrocinador passará a produzir telenovelas vem à tona, colocando em risco o final da radionovela.
 
Outro tema também abordado na peça, ainda que superficialmente, uma vez que, durante a ditadura militar, tudo era proibido, é a questão da homossexualidade, representada por dois personagens, um dos radioatores, que é apenas citado, mas não aparece em cena, e o locutor.
 
O título da peça é uma expressão que se tornou o bordão de milhares de radialistas na chamada Era de Ouro do Rádio, no período de 1940-1960.
 
 

 

 








































Gruli, Amanda, Natallia, Agnes, Lopez e Gontijo: a era do rádio

 





            Achei muito feliz, inteligente, a ideia de OTÁVIO MARTINS, que escreveu o texto, de abordar a decadência do folhetim numa mídia, o rádio, e o começo de sua trajetória em outra, a televisão.  Mais interessante, ainda, é ter explorado um momento marcante, e triste, da nossa história, que foi o golpe militar de 1964 e seus infinitos e tristes desdobramentos, que vivenciamos até os dias de hoje.


         Por ser muito bem cuidado, o espetáculo merece comentários detalhados:


1) Com relação ao excelente texto, OTÁVIO MARTINS consegue, com maestria, construir diálogos interessantes e mesclar elementos da comédia com os do drama, na dose certa, de modo a divertir a plateia e a fazê-la, também, refletir sobre os perigos advindos da ditadura militar, bem como foi difícil, para os que não comungavam com o golpe, sobreviver, imunes, a uma perseguição política e cruel.  O texto faz rir bastante e pode, até, fazer chorar, sem apelar para o pieguismo, mas, ao contrário, deixando aflorar a inteligência e a sensibilidade do dramaturgo, o qual abusa da riqueza de detalhes precisos e preciosos.    


2) OTÁVIO acumula as funções de autor e diretor da peça, o que deve ser, de certa forma, uma experiência bem interessante, já que, ao materializar, no palco, o que escreveu, o diretor/autor já tem o desenho do que deseja transmitir ao público.  As tradicionais “rubricas do autor” até se tornariam desnecessárias no papel.  No caso desta peça, tendo à sua disposição um ótimo elenco, ele soube extrair, de cada ator, o melhor de seu desempenho, atingindo um excelente resultado, quase que sem “estrelas”, devido ao nivelamento do grupo.  A direção impõe um ritmo à peça, que faz com que os noventa minutos de espetáculo pareçam nove.  Bela direção!

 

 

 


 

 

 

 


 

 

 

3) Um elenco (em ordem alfabética) como o desta peça merece comentários individuais:

 

AGNES ZULIANI (ERMELINDA PENTEADO): É uma pena que seu trabalho fique restrito aos palcos paulistanos, pelo menos para mim (Não me lembro, infelizmente, de tê-la visto, em TEATRO, antes, ou a memória me falha neste momento).  Trata-se de uma atriz que merecia receber os aplausos de outras praças, principalmente do Rio de janeiro.  Que excelente trabalho!  Sua personagem é forte, emblemática, representa o que havia de mais reacionário após o golpe de 64, acrescida da “função” de delatora, de traidora dos colegas, “papel” a alguns artistas atribuídos naquele momento negro da nossa história.  É marcante a cena em que, despida de qualquer pudor ou medo, sua personagem faz um discurso contra os subversivos, em defesa do regime de exceção, regime este que “defende a família e a pátria”.  Nunca me cansaria de vê-la atuando.

 

ALEX GRULI (EURICO BOAVISTA): Que ótimo ator!  Como sonoplasta da novela, é o responsável pelos melhores momentos de humor da peça.  Tem um excelente “timing” para a comédia.  É brilhante na cena em que tudo dá errado, durante o último capítulo da novela, e o sonoplasta tem de improvisar, freneticamente, fugindo ao que estava no “script”, utilizando os mais bizarros recursos, para atingir os sons necessários à cena.  A plateia delira nesse momento, graças ao desempenho do admirável ator.  Tornei-me um grande admirador do seu trabalho.

 

ALEXANDRE SLAVIERO (VESPÚCIO NETO): É o representante do capitalismo patrocinador das novelas, o “testa de ferro” de quem só tem cifrões nos olhos e pouco se importa para preservar um patrimônio cultural, que seria a radionovela.  A ele, ou melhor, aos que ele representa, já que é um publicitário que responde pelo patrocinador, só interessa o “progresso”, pisando sobre tudo o que acha passado e retrógrado; ou seja, o que não rende tanto lucro.  O personagem, aparentemente, não é dos mais importantes na trama, mas o ator se sai muito bem na sua representação e o valoriza bastante.

 

AMANDA ACOSTA (LEONOR PRAXEDES): Considero-me “suspeito” para analisar o trabalho da AMANDA, uma vez que sou seu fã incondicional, pela bela voz e pelos seus trabalhos em musicais que tive a oportunidade de ver, no Rio de Janeiro (Esta é a Nossa Canção) e em São Paulo (My Fair Lady).  Sua personagem é uma cantora decadente, exatamente como se deu, na vida real, quando do advento da TV.  Os musicais da televisão não comportavam as divas da época e poucas sobreviveram, infelizmente.  Ao mesmo tempo em que lamenta a sua sorte, LEONOR luta, ferrenhamente, para tentar manter viva a chama do rádio e a dignidade de sua profissão.  Mais um excelente trabalho no currículo da cantriz!  Seus números musicais, na peça, são uma atração à parte.  Aplaudi muito cada um deles.

 

 

 

 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

 

 

 

 

EDUARDO SEMERJIAN (PÉRICLES GONÇALVES): Certamente, de todos, o personagem é o mais prejudicado, com o surgimento da televisão.  Vive uma realidade que ele criou, para alimentar o próprio ego.  Julga-se, ainda, detentor do sucesso e do carisma de outrora, recusando-se a reconhecer que está ultrapassado.  EDUARDO é um dos grandes atores de TEATRO brasileiro e, mais uma vez, provou seu talento, depois de já ter me emocionado tanto na última peça em que o vi atuar, ainda este ano, no Rio: A Bala na Agulha. Um bom personagem para um ótimo ator.

 

 




 

 

 

NATÁLIA RODRIGUES (CONCEIÇÃO NEVES): Com lugar garantido na novela de TV, sua personagem poderia assumir uma postura de acomodação, diante das perspectivas de um futuro sucesso, já que ainda é jovem e bonita, encaixando-se no perfil exigido pela TV, entretanto, numa atitude bonita e corajosa, alia-se aos colegas pela defesa da radionovela.  Boa atuação da atriz.


PETRÔNIO GONTIJO (VICENTE MARTINHO): Infelizmente, não posso avaliar seu trabalho, uma vez que, na sessão a que assisti, seu personagem foi interpretado por MARCOS DAMIGO, de quem passo a falar: Como diretor da estação de rádio, vê-se mexido e ameaçado pelo advento da TV e luta, com garras e dentes, como uma leoa, na defesa da cria, e não abre mão de sua ideologia.  Joga todas as suas fichas e arrisca-se, bravamente, a lutar por seus “subordinados”, numa atitude louvável de comandante de um barco, na iminência de um naufrágio, determinado a ser o último a abandoná-lo.  Ótimo trabalho do ator.


RODRIGO LOPES (WILSON NÉLSON): personagem muito interessante e difícil de ser interpretado, uma vez que requer do ator um cuidado muito grande, para passar ao público a sua condição de gay, hermeticamente “trancado num armário”, que vive uma relação não assumida com aquele que será o futuro galã da telenovela e que não aparece em cena.  Vivencia uma situação de dupla dor, por ter de se reprimir em seus sentimentos e pelo sofrimento e preocupação com a prisão de seu companheiro, o que se deu pelas forças da repressão, uma vez que o rapaz tinha envolvimento com o sindicato dos atores, considerado pecado mortal pela ditadura militar.  Numa atitude corajosa, para a época, acaba assumindo sua condição de gay, numa cena emocionante.  Pontos para o ator.



 

 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes



 

4) O cenário, de MARCO LIMA, é excelente.  Reproduz, com total fidelidade, os estúdios de uma estação de rádio: dois “aquários”, um em cada extremidade lateral do palco, sendo um, especificamente, para a sonoplastia das radionovelas, e outro para a execução de músicas.  Ao centro do palco, um terceiro estúdio (espaço aberto), onde os radioatores se apresentam, o locutor lê os anúncios dos patrocinadores e a cantora apresenta, ao vivo, seus números musicais.  Um grande achado, esse cenário!


5) Os figurinos da peça, de FÁBIO NAMATAME, são dignos de muitos elogios.  Criativos, originais, fiéis à moda da época, bem confeccionados...


6) O apuro nos detalhes do que poderíamos chamar de “direção de arte”, afetos ao cenógrafo e ao figurinista, estão presentes, por exemplo, na forma de umas galochas, usadas pela personagem ERMELINDA PENTEADO, e pelo mimeógrafo, que reproduz os capítulos da radionovela, para os radioatores.


7) Outro detalhe interessante, nesta peça, é a inserção de notícias da época, nos intervalos da novela.  É ótima essa mistura de realidade e ficção.  Não permite que o público “viaje”, apenas, na história, mas que, vez por outra, pise o chão firme e se lembre do preço que pagamos para atingir o atual estado de democracia, embora esta ainda um pouco questionável, em tempos dos governos “ditos” democráticos, após o período das trevas, principalmente os mais recentes, incluindo o atual.


8) Questões sociológicas muito emblemáticas, citadas na peça, são o fato da reprovação a mulheres que fumavam e a estranheza pelo fato de uma mulher utilizar talão de cheques, assim como o constrangimento e a discriminação impostos aos filhos de pais desquitados.


9) Apesar de se passar numa determinada época e de ter como pretexto registrar e mostrar a decadência, pelo menos aparente, do rádio, no Brasil, perdendo espaço para a TV, esse gancho serve de “escada”, ou de suporte, para que seja mostrado o quanto de terror o regime ditatorial, dos militares, representava para o povo civil, de uma maneira geral, e, ao mesmo tempo, trata-se de um texto muito atual, quando assistimos, em pleno século XXI, atitudes de despotismo, por parte dos governos, principalmente na esfera federal, ao mesmo tempo em que, nas ruas ou nas redes sociais, vemos algumas, ainda que, graças a Deus, discretas, manifestações, de pessoas alienadas e inconsequentes, que, insatisfeitas com o tsunâmi de corrupção que assola o país, reivindicando a volta dos militares ao poder.  VADE RETRO!!!

 

 Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes





10) Gostei muito da luz, de WAGNER FREIRE, um elemento de extrema importância neste espetáculo.


11) Também merece um destaque positivo a música original, composta por RICARDO SEVERO.




 




 

Para finalizar, só me resta dizer que CAROS OUVINTES é daqueles espetáculos que cumprem duas das mais importantes funções do TEATRO: divertir e fazer pensar.  Na sessão em que estive presente, a plateia deve ter mais se divertido do que outra coisa, uma vez que havia muitos estudantes, jovens adolescentes, que, decerto, precisam conhecer mais detalhes da nossa história recente, para poder entender melhor o espetáculo.  Em contrapartida, ouvi, no saguão do teatro, enquanto aguardava amigos do elenco, para cumprimentá-los, comentários de pessoas mais velhas, que conseguiram captar a outra, ou a mais importante, intenção do autor do texto.


Que bom!  TEATRO é isso, e para isso!


Façamos uma cruzada pela vinda da peça ao Rio, para uma longa temporada, de preferência.  Os cariocas merecemos CAROS OUVINTES.




 

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FICHA TÉCNICA:
Texto e Direção: Otávio Martins

Elenco (em ordem alfabética): Agnes Zuliani (Ermelinda Penteado), Alex Gruli (Eurico Boavista), Alexandre Slaviero (Vespúcio Neto), Amanda Acosta (Leonor Praxedes), Eduardo Semerjian (Péricles Gonçalves), Natália Rodrigues (Conceição Neves), Petrônio Gontijo / Marcos Damigo (VicenteMartinho) e Rodrigo Lopes (Wilson Nelson).

Diretora Assistente: Maria Silvia Siqueira Campos

Assistente de Direção: Marcos Damigo

Desenho de Luz: Wagner Freire

Cenografia: Marco Lima

Música Original: Ricardo Severo

Figurino: Fábio Namatame

Fotografia: Priscila Prade

Direção de Produção: Ed Júlio

Produção Executiva: Gabriel de Souza

Relacionamento Empresarial: Laís Campos

Assessoria de Imagem: Beatriz Cervone

Assessoria de Imprensa: Morente Forte Comunicações

Realização: Baobá Produções Artísticas

 

 

 

 

(FOTOS: PRISCILA PRADE)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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